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Guga e Senna: a curva que evitou o abraço

Guga e Senna: a curva que evitou o abraço


Domingo, 1º de maio de 1994. Em Lisboa, Gustavo Kuerten almoça no hotel acompanhando pela televisão o Grande Prêmio de Ímola de Fórmula 1. Uma semana depois, a convite de Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, mecenas do esporte e amigo, ele conheceria o ídolo Ayrton Senna em um passeio na propriedade rural do empresário, em Portugal. O encontro, todos sabem, nunca aconteceu. A tragédia na curva Tamburello levou Senna e chocou Guga, então um menino de 17 anos. Dali em diante, ficou uma ferida aberta: quem seria responsável por trazer alegria aos domingos? De onde viria o orgulho? O desencontro evitou uma possível passagem de bastão entre dois dos maiores nomes esportivos da história do Brasil. Há 20 anos, em 1997, o menino de Florianópolis conquistava Roland Garros na maior zebra do torneio francês. Começava a escrever a trajetória que o alçou a ídolo nacional e de imediato o fez ser comparado com o piloto, numa busca incessante da torcida por um novo modelo.

Ao longo desta semana, o GloboEsporte.com vai relembrar o título de Guga em Roland Garros com conteúdos especiais até quinta-feira, dia 8 de junho, data que marca os 20 anos da final.

Em sua capa de esportes de 8 de junho, o Jornal do Brasil trazia: "Final entre Kuerten e Bruguera faz o torcedor reviver domingos da Era Senna". O título sobre o espanhol bicampeão de Roland Garros ainda era uma incógnita. Mas a imprensa nacional já fazia a relação entre Ayrton e Guga. E assim foi. Ao vencer por 3 sets a 0, parciais de 6/3, 6/4 e 6/2, em uma hora e 51 minutos, o catarinense deixava a aura de mortal e vestia o manto dos ídolos. Tão precisa quanto a sua esquerda foi a previsão do JB, que por sinal, nunca incomodou Kuerten, apesar de ele se ver muito abaixo do cara que poderia ter sido um amigo e mentor.

 

"Não conhecer o Senna é um buraco que ficou na minha vida. E isso vira um motor para realizar muita coisa" - Guga

 

- Seguramente, talvez mais do que amigo, um mentor. Teria ganhado uns quatro, cinco Grand Slam a mais com as dicas dele. Seria um privilégio. Já me considero um amigo, para dizer bem verdade. Até mesmo como fã, a gente se dá esse direito. E como esportista também. Para trazê-lo de alguma forma para próximo. O vantajoso para mim é que a figura do Ayrton em si era a maior referência quando eu virei um tenista profissional. Essa cara não pode morrer, é um super-herói. Foi um sentimento de perplexidade. Isso trouxe uma vontade, um desejo de me desafiar mais. E ao mesmo tempo a figura dele é tão distante da minha que nunca ia me imaginar chegar perto. Tendo essa referência e importância que ele tem na minha vida, não faço essa analogia, mas hoje, com maturidade, entendo que a minha carreira teve esse impacto e supriu essa necessidade das pessoas - conta Guga.

Ayrton sempre foi um ídolo de Kuerten. O filho da dona Alice começou jogando futebol de salão, basquete e tênis em Florianópolis. E pela televisão acompanhava os feitos de Nelson Piquet na Fórmula 1. Mais tarde, surgiu Ayrton Senna. Nascido em 1976, Gustavo tinha 8 anos quando o piloto estreou na F1, em 1984. Anos depois, em 1988, aos 12, ele e a família se juntavam aos domingos para assistir às corridas. Na sua biografia, o ex-tenista lembra que estava almoçando em Lisboa, antes de um torneio, quando viu pela televisão o acidente de Senna em Ímola. No início, achou que ele voltaria na próxima corrida. Depois, percebeu que era mais sério. Mais tarde, viu que o herói havia morrido. Custou a acreditar que não poderia conhecê-lo. E também teve lembranças do pai, Aldo Kuerten, que havia morrido quando ele era uma criança.

 

"Certamente Ayrton teria comemorado muito os títulos de Guga em Roland Garros. Ele adorava tênis" - Viviane Senna

 

- É um buraco que ficou na minha vida, e seguramente para preencher isso, vira um motor para realizar muita coisa. Eu consigo equiparar... Um dia voltei para casa com 8 anos sem o meu pai. E o que eu preciso fazer? É uma escolha que a pessoa começa a dialogar e vai encontrando forma de se confortar mais, encontrar segurança. E ali, definitivamente, em 1997, uma das coisas mais especiais foi dar um abraço no Braga (que providenciaria o encontro entre os dois) e ver ele sorrindo de novo. Para mim, ele simbolizava essa alavanca do Brasil relacionado ao esporte. Eu não tinha a mínima noção de que eu ganhando ali que seria um ídolo brasileiro. Mas ali já via que estava dando uma alegria tremenda para todo mundo. Já tinha noção que o dia a dia no Brasil é duro. É um país que não gera oportunidade para as pessoas. O cara tem que desbravar o mundo para conseguir dar certo. Era para trazer alegria e dizer: "Procurem um pouco mais, acreditem nos seus sonhos que pode acontecer"

Depois que ganhou no saibro sagrado, Gustavo Kuerten recordou que se emocionava com o "Tema da Vitória" tocado para o ídolo e que sonhava um dia vê-la tocada para ele. Após Roland Garros, essa cena aconteceu. Para Viviane Senna, Guga e seu irmão Ayrton tinham muito em comum. Ela não se arrisca em dizer que ambos seriam amigos, acha complicado prever algo que não foi possível, mas garante que o piloto vibraria com cada conquista do tenista no saibro.

- Assim como Ayrton, Guga também mostrava ao mundo um Brasil vencedor. Era apaixonado pelo país e um grande batalhador. Conquistou vitórias épicas e inesquecíveis, da mesma maneira que havia acontecido com o Ayrton anos antes na Fórmula 1. É natural que a imprensa busque esse tipo de comparação, afinal, ídolos são importantes para a construção da narrativa do esporte. Guga e Ayrton, apesar de terem algumas semelhanças, como mencionei anteriormente, construíram suas histórias, cada um com as suas características. São dois esportistas que ficarão para sempre marcados na história do Brasil. Difícil de saber se seriam amigos, mas Ayrton era apaixonado pelo Brasil e vibrava com nossas conquistas. Certamente teria comemorado muito os títulos do Guga em Roland Garros e em outros palcos do tênis mundial. Ele adorava tênis - lembra Viviane.

Amigo dos dois, Galvão diz: "Quem chegou mais perto foi o Guga"

Galvão Bueno narrou toda a carreira de Ayrton Senna. Mais do que isso. Foi amigo do piloto tricampeão mundial. Presenciou diversos dos momentos de idolatria do brasileiro com o seu herói. E para estabelecer a relação entre Ayrton e Gustavo Kuerten no coração do Brasil, o narrador lembra também do título da Seleção na Copa do Mundo de 1994. O país tinha Romário, Bebeto, era servido de Hortência e Oscar no basquete, de Gustavo Borges na natação, mas nenhum deles chegou ao patamar do catarinense, que começou essa trajetória após aquele título em Paris. Para Galvão, Guga foi quem chegou mais perto de Senna.

 

"Guga é um ídolo com I maiúsculo" - Galvão Bueno

O narrador lembra que, logo após o título de Gustavo Kuerten, passou a ouvir nas ruas as comparações entre ambos e a crescente onda de idolatria em cima de Guga. A lembrança mais forte é da pressão para um menino de apenas 20 anos.

- Pensei: “Nossa, que pressão!”. Éramos amigos próximos, ele me contava muitas coisas, eu sabia das angústias e das alegrias que o Ayrton vivia nas pistas. Via crescer uma idolatria, uma paixão, um amor profundo, uma relação linda entre os brasileiros e o Ayrton, a cada manhã de domingo, que culminou com uma explosão de sentimentos na morte dele. Para qualquer um que viesse depois, consciente ou inconscientemente, teria um enorme peso para carregar. E o Guga foi muito bem, conquistou seu lugar no coração de cada brasileiro como um legítimo ídolo. O Guga é assim, um cara iluminado, carismático e foi muito talentoso e vencedor durante a carreira. É isso que cativa as pessoas, não só do Brasil, como de várias partes do mundo - conta Galvão, que dividiu as transmissões da TV Globo com ele nas Olimpíadas do Rio de Janeiro e lhe deu o título de embaixador do Time de Ouro, a equipe de comentaristas do canal.

Dona Alice sempre foi contra a comparação entre Senna e Guga

Assistente social, Alice Kuerten superou ao lado dos filhos a perda do marido Aldo. Ele sofreu um ataque cardíaco enquanto arbitrava uma partida de tênis em um torneio em Curitiba. Ao lado de Rafael, o mais velho, e de Guilherme, o caçula da família, fazia o que podia para manter a carreira de Guga. Pedia patrocínios, corria atrás de apoios, fazia as planilhas com os custos da carreira dele ainda no juvenil. Com a crescente procura da mídia e o início das comparações com Ayrton Senna, desde o primeiro momento mostrou-se preocupada.

- Eu na realidade não gosto dessa comparação. As pessoas tiveram um vazio para quem torcer. Mas são pessoas bem diferentes para mim. Conheci a família deles, maravilhosa, ele também foi uma pessoa maravilhosa, mas gente bem diferente. As pessoas queriam ter alguma coisa para torcer, ter um ídolo para bater palma, para ter aquele pazer, é domingo, vamos torcer. E isso era o que víamos no Ayrton Senna. Ganhava, era um vencedor. O brasileiro precisa muito de vencedores, de exemplos de vencedores, e também para contentar o brasileiro não é fácil. Você pode ser o melhor hoje, e amanhã você é o segundo e é um perdedor. Não resta dúvida que o brasileiro queria era ter alguém, uma liderança na vida, que fosse do lado esportivo, que é o mais gostoso. Isso depois do Ayrton acabou sendo ele - explica Alice Kuerten.

A mãe fazia questão de não levar para casa o "ídolo" que tinha depois da conquista de Roland Garros. No lar dos Kuerten só entrava o Gustavo filho, o menino que ela conhecia desde o ventre. Ela também acredita que os brasileiros cobram muito por resultados, e por isso, tinha medo de um dia seu filho não entregá-los mais.

- A relação de mãe e filho, até hoje, ficou. Acho que não tem diferença. Na realidade ele se tornou conhecido para outras pessoas, mas para nós, o que conhecíamos dele era isso. Só tínhamos que entender que ele não estava tão presente, que tinha muitos compromissos fora. Que ele não poderia me ajudar tanto mais. Ele ía muito comigo no supermercado, isso tudo começou a dificultar. As pessoas queriam ele para elas. Não adiantava ir comigo que ia me deixar na mão (risos).

Irmão: "Procuramos aliviar a pressão nele"

Formado em ciência da computação, Rafael Kuerten sempre gostou dos números. Mas também de tênis. Aos 14 anos, o irmão mais velho de Guga dava aulas no clube em que ambos jogavam em Florianópolis. Era um tenista habilidoso e um espelho para Gustavo, que queria imitá-lo. Mais tarde, encordoava raquetes para ajudar na carreira do irmão e seguia dando aulas para fazer dinheiro e ajudá-lo nas viagens e hospedagens mundo afora. Em 1997, foi o único da família a acompanhar Roland Garros desde o início. Ao lado de Letícia, namorada que mais tarde veio a ser sua esposa, saiu da Espanha para Paris. A ideia era ver o irmão e depois passear. Só que Guga foi vencendo, vencendo... e acabou campeão. Rafael, que já ajudava a cuidar da carreira dele, tratou de aliviar a pressão sobre o catarinense.

- Nessa comparação com Ayrton Senna, o que a gente mais se pegava era pelo lado positivo. Poxa, estamos no caminho certo. Se as pessoas estão nos comparando com alguém que foi tão correto e que tínhamos uma admiração, estamos no caminho certo. Levávamos por esse lado e tentávamos eliminar a pressão. Isso poderia nos dar uma pressão maior. Mas sempre conseguimos ficar longe desse tipo de situação. Nessa hora pegávamos isso como negócio. Eu, como empresário, tinha que analisar o que seria bom e ruim. Como pessoa, como família, passamos longe disso. Nunca aceitamos esse título. Apesar de vir a responsabilidade, não nos agarramos. Quando você se agarra, tem consequências - observa o irmão de Guga.

Rafael cita o jeito simples de Guga e a entrega ao esporte como fatores que o fizeram ganhar essa comparação e idolatria dos brasileiros.

- A primeira coisa que fazia era colocar um chinelo, fazer um churrasco em casa com os amigos de mais de dez anos. E quantas vezes dissemos não para grandes festas. Então, o brasileiro dizia: "Esse cara é muito parecido comigo". Eu posso ser um cara como o Gustavo. Isso foi o mais importante na época. O segundo era a alegria que ele passava, sempre sorrindo. O assédio era grande, era difícil almoçar em um restaurante, mas tentávamos ser normais. O respeito ao próximo é o que mais marcou. Ele era ser humano. E como atleta, sempre se dedicou ao máximo. O primeiro a entrar em quadra e o último a sair. Puxava os treinos.

Jornalista viu de perto: "Carisma do tamanho do mundo"

Há 40 anos no jornalismo, Renato Maurício Prado viu de perto a façanha de Gustavo Kuerten em 1997. Então superintendente de "O Globo", ele estava na França preparando toda a logística do veículo para a cobertura da Copa do Mundo de 1998. Tenista amador, resolveu deixar de lado o Torneio de Lyon, onde jogaria a Seleção, e partir para Paris para viver a experiência de Roland Garros. As vitórias de Guga, cada vez mais surpreendentes, o fizeram ficar até o fim do torneio: "Brinquei que só ia embora quando o garoto perdesse. O fim da história todo mundo sabe", diz aos risos. Durante a carreira, Renato também cobriu a Fórmula 1 e viu nascer a idolatria por Ayrton Senna. Conhecedor das duas trajetórias, ele avalia que o garoto de Florianópolis se encaixou perfeitamente no momento histórico vivido pelo país.

- O Guga pegou ainda esse luto. O Senna morre em 1994 e o Guga aparece em 1997. Há uma diferença entre o ídolo que você respeita por ser um grande atleta e aquele cara que você queria ser amigo. Senna e Guga são assim. Embora tenha conhecido os dois pessoalmente e eles sejam diferentes em alguns aspectos. O Guga surge neste momento de carência gigantesca. É impossível conhecê-lo e não gostar. O Senna era um pouco diferente. Era mais fácil gostar do Ayrton de longe do que de perto. Eu tive alguns problemas com ele, mas respeito como o maior piloto de todos os tempos. O Guga não. É impossível brigar com o Guga - explica Renato Maurício Prado.

Ao lado do jornalista Chiquinho Leite Moreira, do "Estadão", ele foi o responsável por apresentar Kuerten para os brasileiros, já que poucos acompanhavam o torneio desde a primeira rodada, quando o tenista venceu Slava Dosedel por 3 sets a 0, dando início à caminhada fenomenal que culminaria com o título. Ele cita que Guga transcendeu a figura de esportista bem sucedido, sendo lembrado não apenas pelos resultados, e sim por uma junção de fatores.

- As apresentações para os jornais eram fidedignas. Não construímos um personagem, ele era aquilo ali. É diferente do Ayrton, que tinha uma preocupação monstruosa com a imagem. Se você escrevesse um adjetivo que ele não gostasse, ele encostava em você e perguntava, mas por que "exagerado"? Carisma é algo difícil de explicar, e ele tem um do tamanho do mundo. O Senna, além de ser tudo que ele é, morreu ao vivo, liderando uma corrida, enfrentando um carro. O Senna ganhou as coisas épicas do herói. O final trágico transformou ele em um mito, uma lenda. O Guga não tem isso. Se você me perguntar qual está no maior status, o Ayrton ganha. Ele teve o drama, a tragédia.

Larri Passos: "Pensei no que fazer na segunda-feira"

Nascido em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Larri Passos sempre esteve ligado ao tênis. A paixão começou ainda criança. Enquanto a mãe trabalhava, assistiu a uma partida e se apaixonou. Adolescente, já dava aulas da modalidade. Aos 17 anos, tornou-se responsável pela escolinha da Sociedade Aliança. Em 1990, o promissor professor passou a treinar o jovem Gustavo Kuerten, uma parceria que sete anos depois renderia ao Brasil um dia inesquecível no saibro francês. Duas décadas depois, Larri confessa que, assim que Guga venceu, nem celebrou muito. Já imaginou o que fazer para frear toda aquela empolgação do brasileiro em cima do tenista de apenas 20 anos.

- Fiquei pensando no que eu ia fazer na segunda-feira para enfrentar toda a carga de coisas que viriam depois da conquista. Uma das coisas que a gente decidiu foi seguir a nossa rotina normalmente, e de Paris já fomos direto para Bolonha para jogar um torneio ATP, enquanto que no Brasil um carro do Corpo de Bombeiros já estava reservado para desfilar com ele. Mas a gente preferiu continuar com o nosso planejamento de trabalho, até para passar a fase de euforia. Só depois de Wimbledon é que nós voltamos para o Brasil. Guga era um novo ídolo nacional, por isso controlamos muito bem o assédio e a euforia para trabalhar com tranquilidade. Dizia para ele: "Vamos, cavalo, pés no chão e coração na quadra" - recorda Larri.

O treinador também percebeu que Kuerten era a bola da vez. Caía como uma luva em um momento de luto para o brasileiro, que ainda não havia superado a perda de Senna. A chegada de um menino alegre, natural, e que vestia as cores do país em um uniforme colorido e descontraído, somaram-se para ele, a humildade do filho da dona Alice.

- Os predicados do Guga são incontáveis. Um deles é a humildade. Guga tem um simplicidade impressionante. Continuou sendo o mesmo que parava para tomar um picolé na rua depois do treino na academia, ou que comia um sanduíche nas mesmas lanchonetes. Eu disse para o Guga que eu não queria esconder ele, queria que ele fosse um ídolo natural para não sofrer as pressões depois. O Guga conquistou Roland Garros porque o coração dele era muito maior que o corpo dele, eu sempre falei isso para ele.

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